Cadinho RoCo – Jeito outro de ler e pintar a vida.

Estréia oficial do Blog – 27 novembro 2006

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

ASSOBIO

ASSOBIO
Sonhei acordado
Desenganado
Chateado
Atrapalhado.
Vou comprar pão
Goteira no fogão
Aceitação
Decepção.
Deus na esperança
Confiança
Lembrança.
Olho para o vazio
Fastio
Assobio.
Belo Horizonte, 27 janeiro 2020
PROCURANDO
     Tem dia que a gente acorda para achar coisas, tem dia que acordamos para perder coisas. E o mistério está exatamente no que é que nos induz às perdas e aos achados.
     Lógico que a perda está relacionada com a distração e o achado com a atenção. Mas, não é só isso. E mesmo que assim seja caímos numa mesma situação de mistério a vasculhar sobre o que então provoca em nós a distração e a atenção.
     Não gosto de perder coisas, da mesma maneira que gosto de achar coisas. Aliás, entendo ser a vida um processo de procura feita em sucessão sem fim. Nesse sentido estamos sempre procurando e achando o que, em várias ocasiões, faz com que não percebamos alguns achados provocando em nós sensação de indesejáveis perdas.

Belo Horizonte, 23 setembro 2015

domingo, 26 de janeiro de 2020

ERRANTE

ERRANTE
Sol no chão
Chuva no chão
Poeira no chão
Lama no chão.
Caminho errante
Angústia incessante
Momento marcante
Tudo tão distante.
Acontece tropeção
Averiguação
Indisposição.
Muita conversa
Alma dispersa
Direção inversa.

Belo Horizonte, 26 janeiro 2020
SERÁ QUE SOU?
     A vida que tive, esta já não é mais comigo, já não está mais comigo. É brisa vinda de longe que passa e balança a lembrança, é só isso, não é mais que isso.
     O que acontece hoje é o que já não mais admite tanto fôlego, é já o que não mais permite tanto fascínio. O que então parece petrificar ondas em montanhas mudas como quem busca agasalhar o sol de noites frias e passadas pelo incontido seguir dos dias.
     Sei lá se isso é passado ou presente. Sei lá se isso é cura ou doença a encarnar no corpo da gente discurso que só o silencio sabe traduzir.
     Será que sou o que fui um dia?
Belo Horizonte, 19 setembro 2015

sábado, 25 de janeiro de 2020

NUVEM PESADA

NUVEM PESADA
Quebrou o vaso
Criou caso
Não tolera atraso
Apertou o passo.
Veio a insônia
Queria sonhar com a praia
Lembrou da sandália
Queria ter manhã extraordinária.
Coisinhas para fazer
É vencer ou vencer
Esticar ou encolher.
Nuvem pesada
Vontade atravancada
Sociedade limitada.

Belo Horizonte, 25 janeiro 2020
AQUELA MANICURE
     Aquela manicure atende a domicílio contando com freguesia certa. Ouve mais que fala em alguns lugares, em outros fala mais que ouve sempre temperando conversa para não demonstrar indiscrição, nem ganhar fama de possuir temperamento mexeriqueiro.
     Fica sabendo com interessante antecedência do que aconteceu na casa da fulana, do que houve com aquele casal, de algumas confusões familiares e assim vai a manicure pintando unhas e abrindo tonalidades outras do que encerrado está, ou estava, nos lares da vizinhança, nos condomínios dos prédios ou até mesmo no comércio próximo.
     A manicure se mostra sempre ágil, competente e de enorme importância, sobretudo para aquelas senhoras que adoram unhas bem tratadas e língua afiada.
Belo Horizonte, 13 setembro 2015

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

APARECENDO


APARECENDO
Tem muita coisa acontecendo
Muita coisa aparecendo
Muita coisa desaparecendo
Muita coisa nascendo.
Tem muita coisa deixando de acontecer
Lembrança afogada pelo esquecer
Realidade em frio suceder
Hoje vai chover.
Acordo em outro lugar
Sonho no fundo do mar
Preciso respirar.
Suave inquietação
Água no sabão
Elucubração.

Belo Horizonte, 24 janeiro 2020
SOMOS ÚNICOS
     O verde que veste a folha da alface não tem o sabor encontrado no verde da couve. É assim que acontece comigo, com você, com qualquer um de nós marcados por semelhanças a, no entanto, distinguirem nossos sabores.
     As cores deslizam por tonalidades diversas, bem como acontece conosco que flutuamos por aquilo que reflete o nosso humor e nosso amor seja lá pelo que for.  Em cada um de nós a vida se faz presente com jeitos não encontrados em mais ninguém. Não somos a abstração de uma massa proposta por quem não crê que somos únicos em nossas mais íntimas aspirações. Não existimos para sermos classificados de maneira aleatória.
     O ser humano é antes único enquanto indivíduo.

Belo Horizonte, 06 setembro 2015

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

CIMENTO CIUMENTO

CIMENTO CIUMENTO
Rede na varanda
Lembrança lavanda
Conversa na quitanda
Chuvinha branda.
Parede de cimento
Olhar ciumento
Observo não comento
Tudo é cem por cento.
Tempo passando
Tempo mostrando
Tempo suportando
Esperança
Que balança
Perseverança.

Belo Horizonte, 23 janeiro 2020
DAS CEBOLAS
     Elas atraíram minha atenção. Quando dei por mim senti espécie de diálogo entre nós, fomos juntos para casa. Elas pareciam alegres, demonstravam descontração. De maneira assim meio discreta aceitaram minha acolhida.
     Aquelas pequenas cebolas então foram descascadas com paciência e carinho. Observadas e realçadas pelo tratamento a elas dispensado assumiram outra postura. Pela transparência do vidro posso vê-las mergulhadas no vinagre em busca de novo sabor.
      Nem as cebolas se transformarão em vinagre, nem o vinagre passará a ser aquelas cebolas. No vidro a transparência do tempo em mudança constante transformando cada detalhe de tudo que acontece comigo, com aquelas cebolas, com aquele vinagre.
Belo Horizonte, 27 agosto 2015

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

VAGÕES

VAGÕES
Caminhos caminhadas
Passagens pisadas
Manhãs ventiladas
Reveladas.
Aeroportos aviões
Rodovias caminhões
Portos embarcações
Ferrovias vagões.
Pavios
Navios
Rodopios.
Olhos fechando
Vela apagando
Divagando.

Belo Horizonte, 22 janeiro 2020
DISCRIÇÃO
    Quando você não tem mais o que dizer o melhor mesmo é ficar quieto.
     A prudência do silencio nos protege da impertinência que antes poderia surgir. É assim que muita coisa pode ser evitada e que muita construção pode ser conquistada.
     Falar por falar pode ser perigoso demais, sobretudo quando buscamos alcançar o que pretendemos. Uma frase ou até mesmo uma palavra pode estragar tudo.
     Quando então o fluir dos acontecimentos dispensa argumentos, o mais sensato é ficar quieto e observar a evolução das coisas com a devida discrição.

Belo Horizonte, 22 agosto 2015

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

DESENGONÇADO

DESENGONÇADO
Acordou meio desacordado
Perdido desencontrado
Sonho atrapalhado
Corpo desengonçado.
Água no mar ressacado
Barulhão pesado
Olhar assustado
Vento danado.
Na geladeira suco gelado
Xamã com olhar desconfiado
Late para sujeito mal-encarado.
Portão fechado
Chão molhado
Caso encerrado.

Belo Horizonte, 21 janeiro 2020
SONHADORA
     Ela acorda cedo bem cedo pra trabalhar. Mora longe precisa de duas conduções para chegar até à padaria onde trabalha.
     Seis da manhã abre comércio, pães quentinhos à espera da freguesia. Ela sorri sempre desejando bom dia embalando produtos, etiquetando e querendo saber se ele e ela querem mais alguma coisa. Está ali para servir. São operários que chegam, empregadas domésticas, jovens ainda meio que sonolentos, senhoras mais que detalhistas e aquele que quando aparece faz com que ela respire fundo.
     Não dá pra segredar sua disposição em atender aquele galã que finge indiferença deixando-a ainda mais, digamos, agitada.
     Ela acorda cedo todo dia, saída de sonhos brotados do balcão daquela padaria.
Belo Horizonte, 19 agosto 2015