Cadinho RoCo – Jeito outro de ler e pintar a vida.

Estréia oficial do Blog – 27 novembro 2006

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

DESCALÇO

  DESCALÇO

     Foi a sandália de dedo arrebentar a tira para que me desse conta do tempo que eu não fazia ainda que pequena caminhada descalço.

     Na praia costumo andar descalço, mas no cotidiano aqui em casa estou sempre com par das benditas sandálias de dedo. Até que a tira arrebenta e pronto, pego-me na necessidade de continuar cuidando do jardim descalço.

     Agora busco solução de emergência criando jeito de prender a tira, mas o melhor mesmo é tratar de obter sandálias novas caso eu não queira ter de ficar em casa andando descalço, ou com sapatos que uso para sair.

Belo Horizonte, 04 dezembro 2020

O ENIGMA DE ÓRION

     No “Pedacinhos do Céu”, ela pede uma música. Da caligrafia o outro lê: Curió. Indagação geral. Que música será essa?  Da memória o ciscar do curió que definitivamente, não é uma música. Trata-se, com certeza, de um passarinho.

     Com a devida autoridade, o Tião busca do seu bandolim “Odeon”, do mestre Ernesto Nazareth. A música era aquela.

     A Dorinha sabia que havia confundido o título da música, mas ficou sem entender porque discutiam sobre o curió, pássaro deveras encantador. O que o outro leu como sendo curió, era Órion. Ela escreveu Órion.

     Dorinha estava mesmo absorvida pelo “Pedacinhos do Céu”, entregue à constelação de Órion com aquelas três belas estrelas: Betelguese, Riguel e Bellatrix. As tão conhecidas “Três Marias”. Ela escreveu Órion, o outro leu curió e a música era Odeon.

     Mas, por que lembrar da constelação de Órion? Pensando bem, será que a Dorinha é uma dessas estrelas? Pensando melhor, como é que o Tião desvendou esse mistério vindo de Órion?

Belo Horizonte, 10 janeiro 1999

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

PRUDÊNCIA

 PRUDÊNCIA

      Tem um tempo em que é preciso desacelerar o curso das expectativas que crescem, por vezes, numa velocidade assustadora.

      Depois da chuva observo o jardim salpicado por elementos que demonstram singular alegria. Arbustos que denunciam crescimento repentino, sementes responsáveis pelo surgimento de mudas achadas aqui e ali, algumas até indesejáveis.

     Tem um tempo que apresenta reflexos a merecerem de nós atenção e cuidado, para que não nos percamos em investidas meramente emocionais a, por vezes, despertarem impulsos nem sempre oportunos.

Belo Horizonte, 03 dezembro 2020

SEM PELE

Quero o querer

Quero o querido

Querer querido

Querido querer.

Quero o querer

Vivo a querer

O querer da vida

A vida do querer.

Quero a palavra

Da palavra

Do querer.

Quero a nudez

Do querer

Pelado e sem pele.

Belo Horizonte, 08 janeiro 1999

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

DESVENCILHANDO

  DESVENCILHANDO

     Atualmente não chega a ser tão estranho para mim sentir o meu próprio ser mais perdido do que encontrado no tempo. Já nem fico tão impressionado com isso por existirem comportamentos que acabam sendo naturalmente absorvidos pelo hábito.

     Sei do tempo que estou nele, ou pelo menos suponho que sei, sabendo também haver a vinda do que está ou não por vir colocando-me em projeções que nem dou tanto assunto assim. Do passado também não alimento disposição em ficar remoendo sobretudo o que não traz nenhuma relação com o presente. Também nem sei o que traz esse tema aqui agora, posto que estou flutuando por expectativas a fazerem com que eu vá me desvencilhando de tudo que possa intoxicar momento que vivo acreditando muito no possível das possibilidades que nem sei se conseguirei de fato obter.

Belo Horizonte, 02 dezembro 2020

CARENA

Da carena

spaço aberto

Passagem que mostra

Caminho no tempo.

Da carena

Rumo novo

Vontade que invade

Dia e noite.

Desenho rastro

Futuro presente

Frente à lembrança.

Feição disposta

Sugerindo o navegar

Em busca do mar.

Belo Horizonte, 29 dezembro 1998

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

COISAS DO TEMPO

  COISAS DO TEMPO

      O tempo passa. Primeiro tempo, segundo tempo. Dois tempos, três tempos, quatro tempos. Início do tempo, fim do tempo.

     O tempo voa. Tempo aberto, tempo fechado. Tempo ensolarado, tempo enluarado, tempo estrelado.

     No tempo a verdade, no tempo a mentira. Tempo de vida, tempo de reclusão, tempo de observação, tempo de execução.

      Não dá para perder tempo, é preciso ganhar tempo mas, cuidado para não cair na crença de que está ganhando justo quando está perdendo. Quanto ao tempo, ele segue concedendo liberdade para que dele você faça, de preferência, o melhor.

Belo Horizonte, 01 dezembro 2020

ANTES DA HORA

     A possibilidade do encontro surgiu espontânea. Bastaria uma confirmação, para acertarmos o horário.

     Da confirmação, o horário acertado. Agora, a expectativa. A espera da hora, as ideias nos minutos e uma ligeira transformação no agir. Ideias confusas a perceberem o brotar das intenções. Nada de ficar antecipando os acontecimentos. Mas, os acontecimentos insistem na emancipação dos instantes postos à beira do encontro.

     Resolvo então, limpar o meu cachimbo.

Belo Horizonte, 21 dezembro 1998

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

DESPERTADORES

 

DESPERTADORES

            Tenho sim singular simpatia por relógios com despertadores. Evidente existirem despertadores que beiram a inconveniência, mas mesmo assim gosto dos despertadores.

      No meu quarto o despertador dá o ar da sua graça às seis da manhã. No meu celular o despertador avisa que são dezoito horas, bem como acontece com meus dois relógios de pulso avisando que é chegada a hora de parar com tudo para momento de prece. Já o das seis da manhã, quando ele desperta no mais vezes já estou despertado.

      Tenho sim acordado cedo.

Belo Horizonte, 30 novembro 2020

FUGITIVO

     As palavras assustam. O silencio assusta. E da atenção, a falta de atenção. Daí a indiferença provocando reação diferente no agir da gente.

     O mais que é menos, o menos que é mais. A indefinição na conveniência do comportamento então inconveniente. A vontade no medo da coragem que acaba encorajando o medo. Tudo na dimensão nenhuma que além de não dizer nada, troca  tudo por nada.

     Só porque a apreensão do cuidado, cuidou de prender o que não consegue sobreviver sem liberdade.

Belo Horizonte, 11 dezembro 1998

domingo, 29 de novembro de 2020

HORÁRIOS DIVERSOS

  HORÁRIOS DIVERSOS

     Já que estou com tempo resolvo averiguar relógios que tenho ao meu dispor. Uma na sala, um na cozinha. Tenho ainda um no quarto e dois relógios de pulso sem contar com o instalado no celular e nos computadores.

     Cada relógio marcando hora especifica, não estão com horários coincidentes. Uns mais adiantados outros mais atrasados. A rigor nem sei dizer qual deles aponta para a hora certa porque também nem sei se tem alguém que vive na hora certa. Bom que assim seja porque também viver refém da precisão não dá.

     Agora, enquanto guardo um relógio pego outro para colocá-lo no pulso e o dia segue seu rumo.

Belo Horizonte, 29 novembro 2020

MAROTO

De longe o aceno

Do mar que agita

A lembrança atenta

Aos seus trejeitos.

Da espuma a água

Desenhos nuvens

Amanhecidas e ensolaradas

Em seus mansos mistérios.

Palavras no mar

Margem no semblante

Vivo de alguém.

O mar mulher

Macia insinuação

Entregue ao agir das mãos.

Morada Nova de Minas, 01 dezembro 1998

sábado, 28 de novembro de 2020

RELÓGIO NOVO

  RELÓGIO NOVO

     O relógio da cozinha estava sem funcionar fazia tempo. Antes que pensem só na eventual pilha descarregada advirto para o fato de que mesmo com pilha nova e carregadíssima o relógio parou de funcionar e buscar reparo é perda de tempo porque o melhor a fazer é substituí-lo por outro.

     Hoje, finalmente hoje, tenho novo relógio então colocado na cozinha ocupando lugar daquele que já deu o que tinha que dar. Um novo relógio discreto, menor e funcionando que é uma maravilha.

     Interessante perceber o quanto há de pertinência no tempo de cada momento.

Belo Horizonte, 28 novembro 2020

LUGARES

     Viajei. Do avião, avistei a cidade. Lagoa da Prata. Do silencio, imaginei um passeio pela cidade. Pés no solo firme.

     Viajei. Da estrada, outra cidade. Santo Antônio do Monte. Respirei montanhas do horizonte. Antes do anoitecer, lá estava eu no espaço. Céu de indagações tantas.

     Voltei. Do banho, a transparência da água entornada em pensamentos levados ao mar. Corpo lavado na salgada insinuação de uma saudade singular.

     Voltei. Em mim mesmo, a presença de rastros fáceis de serem identificados. Corpo enxugado pelo anseio de outro corpo. Eu diante do espelho, nessa sensação plural.

Belo Horizonte, 21 novembro 1998