Cadinho RoCo – Jeito outro de ler e pintar a vida.

Estréia oficial do Blog – 27 novembro 2006

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

QUEM SABE?

QUEM SABE?
      Abriu janelas e portas da casa vazia. Cartazes de duas imobiliárias oferecendo o imóvel com mais de cinquenta anos, uma casa simples com quintal e tudo. Varanda escondida por muro alto construído posteriormente porque do jeito que estão as coisas todo cuidado é pouco.
     O preço da casa pode variar um pouco sendo que o importante mesmo é o lote e sua localização. Mas, pelo que pode ser observado de longe, a oferta não atrai interessados naquela casa tão quietinha e tão simpática, muito embora antiga e por isso mesmo fora do que hoje passa a ser exigido e oferecido por tanta tecnologia.
     Qual será o destino dessa casa é raciocínio que leva a uma possível demolição para que daquele espaço brote nova edificação, quem sabe um prédio?
Belo Horizonte, 18 janeiro 2018
EMPANZINADO
     Sempre considerei difícil, para não dizer incompatível, a ação de criar com a de vender. Os motivos são tantos, que cita-los aqui seria enfadonho e até inconveniente. Eles aparecem sempre, da mais variada forma e nos mais inesperados momentos.
     Por força da necessidade, quando surge excepcional ocasião, trato do assunto ido à venda do patrocínio. No mais das vezes, comigo, ele resulta em nada. Quando não acontece situação a criar verdadeiro embaraço na conversa. Foi o que aconteceu dia desses, quando explicava a existência e razão de ser dos folhetos que escrevo, para aquele dito empresário. Missão dificílima. O sujeito trazia em seu semblante a rigidez de um entendimento por demais atravancado. Até que sem qualquer preparo, o gajo perguntou-me porque não escrevo folhetos com receitas culinárias. “As mulheres iriam adorar, o que facilitaria em muito a obtenção do patrocínio.”
     É isso que dá. Misturar criação com venda é mesmo de amargar. Confesso ter saído daquela conversa empanzinado.
Belo Horizonte, 16 maio 2002

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

BUSCA DA ÁGUA

BUSCA DA ÁGUA
      O desejo de produzir aquarelas é algo que brota independente do que acontece. Há espécie de chamado a despertar os sentidos para o surgimento da aquarela.
     Sensação de que há uma nascente querendo brotar da terra para achar caminho próprio rumo ao mar.
      Meu desejo de estar perto do mar parece ter alguma sutil relação com o desejo de criar nova aquarela. O movimento da água provocada pelos pincéis demonstra alguma terna indolência. O movimento do mar em mim sugere distância com sede de aproximação.
     Tudo alinhado na natureza do viver em busca de espaço.
Belo Horizonte, 17 janeiro 2018
TRABALHA A DOR

Trabalho sem valor
Ruína do trabalhador
Trabalho no horror
Do especulador.
Será melhor
Ou pior
Viver o calor
Do suor?
Trabalha a dor
Corpo motor
A impor
Vida e torpor
Em busca de amor.


Belo Horizonte, 01 maio 2002

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

AVANÇO

AVANÇO
     Todo trabalho necessita de reconhecimento fazendo com que dele obtenhamos lucro capaz de fazer com que tenhamos meios de sobrevivência garantidos. Sair desse contexto é o mesmo que ficar por aí entre delírio e outro na vã expectativa de que tudo acontecerá como que por encanto.
     Quando então percebi minha afinidade com a aquarela senti a possibilidade de crescimento proposto por ela ao meu viver. Daí a disposição em produzir e a intenção em comercializar o que produzo, até para que eu possa produzir mais.
      A arte, uma vez tratada com a devida dignidade eleva o ser dando-lhe postura que agirá em favor do seu próprio viver. Mas existem sutilezas que são mesmo difíceis de serem percebidas por quem não consegue ir além do que só faz por promover o atraso.
Belo Horizonte, 16 janeiro 2018
VEREADOR CASTRADOR
Senhor Vereador    
     Vossa Excelência não imagina minha surpresa ao saber da aprovação daquele vosso projeto. Entre outras sutis perversidades, agora  por força de lei, Pit Bull em Belo Horizonte, só castrado. Mas logo o senhor Excelência, homem quase santo a arrebanhar votos de tantos cristãos, com tamanha intolerância? Está bem. Os Pit Bull não devem ser mesmo criaturas de Deus. Aliás, chego a admirar vossa nova postura ao legislar para os animais. Ainda que seja para extermina-los.
     Mas Vossa Excelência poderá propor também aposentadoria para os burros, jumentos, cavalos, éguas e semelhantes, que prestam relevantes serviços para a sociedade, como já aconteceu na Câmara do Rio de Janeiro. Ou então tratar dos cães a formarem matilhas, em face do abandono, nas ruas de Belo Horizonte. Não estão eles por merecer um belo projeto de lei? São idéias dignas de um vereador isento e zoologicamente correto.
      Lembro até de frase que um dia escrevi. Uma das grandes virtudes dos cães Pit Bull é a de terem eles incrível capacidade de exuberar a ferocidade humana.
     Pena, não termos leis capazes de castrarem, com a devida competência, mandatos políticos a, com toda fúria, morderem e arrancarem pedaços inteiros da ingenuidade e boa-fé de tantos eleitores. Não é disso que estamos precisando Excelência?

Belo Horizonte, 30 abril 2002

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

VENDENDO

VENDENDO
     Aconteceu primeira venda das aquarelas que tenho criado. Uma delícia de venda porque, de certa forma, abre efetivamente o ano de 2018 para comercializar o meu trabalho, que é algo necessário e pertinente para qualquer pessoa que produz.
     Meu ingresso nas artes plásticas não é recente e nem tão pouco aventureiro. Ainda mais agora que estou bastante identificado com o universo das aquarelas que a mim traz sensação de algo que eu vinha buscando fazia tempo, sem me dar conta disso. Razão para acreditar neste 2018 e no trabalho que realizo, bem como na sensibilidade de quem tem acesso às aquarelas.
Belo Horizonte, 15 janeiro 2018
OLHO DA LUA

Perambulo por aí
Ausente de mim
Caminho qualquer
Nesse dia qualquer.
Percebo de longe
Sombra de gesto
Carícia de mão
Hálito de beijo.
Permaneço perdido
Nesse passo qualquer
Tarde desaparecendo.
Lua nos olhos escuros
Céu tão distante
Nesse estar tão longe.


Belo Horizonte, 18 abril 2002

domingo, 14 de janeiro de 2018

OBRA DE ARTE

OBRA DE ARTE
      De aniversário um presente valioso. Ganhei da Mary Lane imagem de Nossa Senhora instalada em pequena capela, peça esculpida e folheada a ouro pelo artista George Helt devidamente protegida por cúpula de muito bom gosto. Uma maravilha que agora tenho em minha mesa de trabalho servindo para atentar minha lembrança do quanto se faz importante estarmos sob a benção e graça de Deus.
     Com o passar do tempo registros a mostrarem instantes estimulados por gestos conferidos por nossa crença e empenho em estarmos sempre aliados ao que faz sentido ao nosso viver.
Belo Horizonte, 14 janeiro 2018
SENTENÇA


Sei que a vida quer
Sem saber
O que quer
A vida do meu viver.
Sei do querer vivo
Guardado e contido
Tão passivo quanto ativo
Tão esquecido quanto sabido.
Sei que a vida quer
Querer e crescer
Saber e conhecer.
E de sua crença
Vida assume presença
Fé que faz sua sentença.


Belo Horizonte, 07 abril 2002

sábado, 13 de janeiro de 2018

COMPARANDO

COMPARANDO
     Trabalho é o que não falta. Muito que fazer diante do dia que passa quando lembro de ver um gerador de ar. Pneus da bicicleta Jorgina precisam de ar e minha primeira opção é achar bomba manual para calibrar os pneus. Uma bomba que presta e que dê conta do recado de fato está por preço de estourar meu orçamento. Vou para o gerador de ar elétrico que é inclusive mais eficaz. Para meu espanto, tanto mais eficaz quanto mais barato que a tal da bomba. Reconheço estar sem entender o que vem acontecendo.
     Penso no que fazer quando preciso do que desafia minha possibilidade de aquisição. Resolvo criar nova aquarela, preciso vender aquarelas que produzo.
      Preciso encher de ar pneus da bicicleta Jorgina e de arejar meu viver com inspiração que Deus me deu.
Belo Horizonte, 13 janeiro 2018
ANTES DO AMANHECER
     De um assunto surge outro. Sinto-me confuso. Melhor não pensar muito. Projetos deixados ao sabor do tempo. Melhor não forçar muito. São passagens a mostrarem sentidos nem sempre bem entendidos.
     Não há nenhum assunto agora, que possa interferir neste que passeia pelo intimo. São ruas a testemunharem o fim da tarde. Em meio ao forte ruído da cidade, um silencio percebido por algum motivo a trazer esta ou aquela recordação. Assim vão sendo desenhadas algumas dimensões a irem misturando dúvida e certeza, areia e cimento, água e algumas ferramentas a darem paredes ao espaço. É uma casa nova, um prédio demolido, uma loja inaugurada e uma conversa que vende e compra mundo de coisas. São assuntos que mudam rumos e abrem portas fechando mais uma fase que a vida não irá esquecer.
     Ricardim busca da geladeira outra cerveja, antes que o dia amanheça.

Belo Horizonte, 05 abril 2002

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

NASCENDO

NASCENDO
      Nascer a gente nasce todos os dias oferecendo assim oportunidade para que de cada dia encontremos motivação para crescimento digno.
      Todo dia é dia para celebração, posto haver em cada instante da vida a graça de estarmos usufruindo do mundo que nos é oferecido.
      Pessoas aparecem todos os dias de um ou de outro jeito. Somos contemplados por aquilo que nos eleva, ou até mesmo pelo brotar de pesos a exigirem reação nossa como sendo esse o expediente vindo em favor do nosso amadurecimento. Ocasião para que sintamos nosso poder de resistência e nossa capacidade de superação do que age em contrário ao que buscamos alcançar. Assim é que vamos confirmando nossa trajetória, assim é que comprovamos o que instalado está em nosso querer.
      Cada acontecimento traz consigo parte do imenso tesouro a ser devidamente avaliado por nós.
     Somos o fruto das nossas próprias escolhas.
Belo Horizonte, 12 janeiro 2018
OUTRO CANTO
     Sabe de uma coisa? A sereia Lelé caiu no canto do Gostosão de Guarapari. Não há dúvida. Sua empolgação concebida por incríveis reações é de impressionante clareza.
     Como presente de aniversário, sereia Lelé, sem qualquer reserva, pede o Gostosão de Guarapari em casamento. Sereia Lili, em mais um de seus repetidos bocejos, parece saber mais do que aparenta. Seu sono vem de noite mal dormida por ter estado às voltas com os galanteios de um certo tubarão entregue aos anseios e armadilhas da paixão. Daí sua sonolência que exige pronta decisão do mestre Jardel, que tem lá seus momentos de alquimista.
     Uma ampola com líquido escuro. Mestre Jardel recomenda para sereia Lili tomar de único gole. Lili nem precisou prender respiração, sorvendo tudo com agilidade e crença. Fôlego de sereia é diferente. Fato é que bocejo sumiu e lá estava Lili fazendo festa na festa do Gostosão. Mestre Jardel, com ares de profundo conhecedor dos segredos da natureza, limitou-se a breve conclusão: - É a catuaba.
Belo Horizonte, 29 março 2002