Nesta publicação dois textos que podem ser entendidos como duas referências do nascimento de dois personagens.
MOEDA DE AMOR
Conheci São João da Barra – SJDB quando então alguém me disse da existência sua João da Barra.
Isto foi o que ouvi do Batistão ao contar que um dia alguém disse de mim eu João da Barra, da Barra.
O homem quis saber mais, sair do seu mundo só dinheiro e veio, veio, veio até chegar aqui cá em SJDB Grussaí de onde dá pra ver lá longe a curva do mar, praia do Açu.
Homem veio Batistão investidor que cá comigo ou traz moeda de amor ou nada feito.
Belo Horizonte, 30 julho 2010
DO FUNDO DO RIO
- Não tenho noção do tempo que eu e a imagem de Santa Luzia ficamos sepultados à margem do Rio das Velhas. Fato é que de repente ruído veio cavando areia. De único puxão tirado fui com a imagem, daquela cova. Homem era o próprio rosto do espanto. Dizia enxergar de um de seus olhos que até então estava cego. Falando, chorando, clamando e tremendo, levou-me com a imagem para a água do rio. Foi aí que percebi ausência de corpo em mim. Homem mergulhou imagem e do fundo do rio surgiu a voz dela; de Santa Luzia.
- Que a graça de Deus Pai Nosso Senhor seja louvada. Da pureza e transparência desta água, Pai, Filho e Espirito Santo batizam o Cavaleiro da Meia-Noite que doravante irá surgir em corpo vivo ao nascer da noite de cada noite. Eu, Luzia feita santa por obra e graça de Deus, rogo luz aos seus olhos, para que sejam eles fiéis vigilantes dessa sua madrinha e de todos os filhos e filhas do Pai Nosso que está no céu. Tendo como montaria o cavalo Robiara, levará à treva da noite, a luz da fé e do discernimento entre o bem e o mal, que anuncio sob inspiração da Santíssima Trindade.
Precisamos de dar atenção ao que envolve a vida de muita gente
DUAS OBSERVAÇÕES
Não é preciso ser tão esperto para perceber a quantidade de peões que embarcam diariamente de Belo Horizonte para Campos dos Goytacazes – CDG e São João da Barra – SJDB em busca de trabalho.
Aqui, duas observações:
A primeira dirigida à Viação Itapemirim que deve avaliar com mais critério situação dos horários relacionados às viagens de Belo Horizonte – CDG – Belo Horizonte. É evidente haver a necessidade de, em virtude da distância, oferecer ônibus mais confortáveis e até com preços diferenciados para que tenhamos todos atendimento no mínimo mais respeitoso.
A segunda dirigida, em particular, às autoridades de SJDB, para que avaliem com atenção o que tem atraído essa quantidade de gente para o município.
O que parece representar progresso poderá é estar promovendo violento retrocesso à realidade de SJDB.
Belo Horizonte, 29 julho 2010
ROBIARA
Alto, magro, cara sofrida. Sua idade, uns cinqüenta anos. Barba e cabelos grisalhos a escaparem do chapéu escuro com abas largas. Botas com canos até os joelhos, pretas como todo resto da vestimenta protegida por vasta capa.
Um homem do mato, silencioso e observador. Tímido cumprimento abrindo possibilidade de conversa. As cadelas, como que por encanto, parecem duas estátuas sentadas à beira da fogueira. Sem mais o que fazer estendo a mão. Língua de fogo aquece o balanço lento dos braços. Da voz, homem convida para sentar. Quero saber quem é aquele homem que parece não querer saber quem sou eu. Mesmo assim, digo meu nome como estímulo para que ele faça o mesmo. Homem aponta para o cavalo dizendo ser ele o Robiara, nome vindo do tupi-guarani, que significa: ter confiança em. Presente que ganhou de um índio amigo, faz tempo.
Na expressão do cavalo, mistério. Mas quem é este homem?
Batistão diz que tem vontade de sair por aí, mas sem ser reconhecido. Só que por outro lado, se deixa levar pela vaidade de muitas aparições.
Pergunta quer saber como eu, João da Barra, faço pra transitar por aí sem qualquer constrangimento. Digo que simplesmente vou e quando não quero ir não vou.
Mas, entendo realidade do Batistão que de tanto gostar de dinheiro termina por ter que suportar algumas abordagens, digamos, indigestas.Mas Batistão entende ser isso parte do jogo e por esse motivo é que por vezes não consegue ir onde de fato quer ir.
Belo Horizonte, 28 julho 2010
DERBAKA
Foi linda a aparição daquele som. A percussão do instrumento foi ganhando ambiente, doutrinando ouvidos e inquietando corpos.
Não era uma darbuka. Era uma derbaka.
Cheguei mais perto. Os dedos ágeis do percussionista na pele esticada causava arrepio. Braços em busca de gestos no K-Bab que respirava outra dimensão do tempo. E a música no encanto daquelas mulheres transpirando vida. Coração no palpitar do ventre, no balanço dos ombros, na ousadia das pernas, nos pés descalços, no dedilhar de delírios.
Era uma derbaka que é a darbuka libanesa. Se é assim, a darbuka é uma derbaka egípcia. Pensamentos em busca de lógica. E o estalo daquele toque a provocar imediata reação da sutileza de atento pandeiro. Colares, anéis, pulseiras e a beleza daquela tiara. K-Bab na sede de tanta sedução. Até que a derbaka inquieta, de um toque definitivo, instala o silencio.